
Não abre a cortina ainda, deixa o quarto se iluminar sozinho com o pouco de luz que vem lá de fora.Deixa tudo escuro e fica aqui comigo, pra eu te olhar sem nem te ver.Fecha os olhos,pra se perder numa imensidão tão tua,olhe bem tuas idéias ainda meio nuas,espantadas pelo amanhecer.Corre meu bem,corre de tudo que te faz mal.Abrace, abrace muito o que te faz bem e só abra os braços quando esse bem não mais te atinja da mesma forma.Mas não acende a luz,deixa tudo ser a meia-luz,sem confusão.Grite,daquele teu jeito meio rouco e baixo e grave e sério, que você faz tão bem.Me cobre com esse teu corpo que eu já cansei de imaginar, e rever, sozinha , pouco a pouco.E suspira , por fim, de volúpia e satisfação com o pulmão cheio de qualquer cheiro barato , de qualquer fumaça espessa e sórdida que você tragou com quase nenhuma delicadeza, mas com extrema precisão.

Me divide esse teu trago, esse teu gole de esbórnia,esse teu ombro muito largo.Alguma sobra do seu tesão meio perdido,sua boêmia.Te peço que me leia não como quem lê Drummond, mas me leia como se escrita por Buk.Estranho seria se assim não fosse, com todas as marcas que eu já imaginei nas suas costas,estranho seria se não fosse como a música diz.Uníssono, se juntos chegássemos aonde tanto desejamos, mas por moral e ética não fazemos.Seria justo, se antes de tudo, nada tivesse sido se não carnal.

Me deixa reparar o mal que ela te fez, me deixa reparar suas asas quebradas,me deixa te fazer maior e melhor.Me deixa sanar seus medos,angústias e feridas.
Mas não me deixe.
2002- Rio de janeiro -Brasil
Ela fechou os olhos,tentou,em vão, se concentrar nos fatos.Ela já havia embarcado em direção a New York e provavelmente não se veriam mais.Ele não se daria ao trabalho de ligar ou escrever,ela sabia disso,ainda que o coração dela barganhasse por qualquer sílaba que viesse dele,por qualquer suspiro,toque ou notícia.O coração falhou em uma ou duas batidas,doeu.Estranhava e se confundia, partir de certa forma implicava em não amá-lo, e a única certeza que tinha é que o amava,mas ela deveria esquecê-lo, como ele faria, não por querer, mas por precisar.Nova York,se ela conseguisse lá, conseguiria em qualquer lugar,ainda que sozinha.
Abriu os olhos,era hora de recomeçar na cidade que nunca dorme.